Neurônios-espelho podem explicar por que adotamos hábitos de quem amamos
Processo envolve neurônios-espelho e liberação de dopamina, mas especialistas alertam para a importância de manter a identidade própria
Base neurobiológica: neurônios-espelho facilitam a adoção de preferências de terceiros ao simular internamente o prazer observado no outro;
Papel da dopamina: a liberação de substâncias durante momentos de afeto associa estímulos novos a sensações positivas, alterando a percepção do córtex sensorial;
Psicologia das relações: especialistas alertam que a adaptação de gostos deve ser espontânea para evitar a perda da identidade ou a anulação das próprias preferências.
Descobrir um novo estilo musical, passar a frequentar lugares antes não explorados ou apreciar um prato até então rejeitado são mudanças comuns quando se estabelece um vínculo afetivo profundo.
Mais do que uma simples vontade de agradar, a ciência e a psicologia explicam que essa alteração de repertório é motivada por mecanismos neurobiológicos e emocionais específicos que conectam o sistema de recompensa do cérebro à necessidade humana de pertencimento.
No nível cerebral, a internalização dos gostos do outro começa em um grupo especializado de células chamadas neurônios-espelho. Esse sistema funciona como uma simulação interna e é acionado tanto no momento em que uma pessoa realiza uma ação quanto ao observar um terceiro executá-la e expressar algum sentimento.
Quando alguém próximo demonstra prazer genuíno ao escutar uma música ou provar uma comida, os neurônios-espelho reproduzem essa experiência internamente no observador, reduzindo barreiras cognitivas e facilitando a adoção da preferência.
Além do sistema-espelho, o circuito de recompensa desempenha um papel central por meio do condicionamento clássico dopaminérgico. A convivência e o carinho liberam substâncias como dopamina e ocitocina, gerando sensações de segurança e bem-estar.
Estímulos neutros ou desconhecidos presentes nesses momentos — como uma música tocando — passam a ser associados a essa carga emocional positiva, alterando a percepção do córtex sensorial e atribuindo novo valor à experiência.
A psicóloga Alessandra Araújo explica que a dopamina atua como o principal mensageiro da saliência motivacional no cérebro.
“Quando você é exposto a um novo estímulo em um contexto de afeto e alta liberação dopaminérgica, o cérebro reavalia o valor daquele objeto ou experiência para cima. Em termos práticos, algo que talvez você achava indiferente passa a ser visto com olhos mais empáticos”, afirma.
Alessandra aponta que o afeto atua como um “intensificador sensorial”, fazendo com que a experiência pareça fisicamente mais prazerosa devido ao ambiente de segurança.
Sob a ótica da psicologia clínica, a busca por pertencimento e a vontade de criar familiaridade impulsionam a aproximação dos universos pessoais. O cérebro adulto mantém a neuroplasticidade, capacidade de reorganizar conexões neurais e criar novas sinapses ao longo de toda a vida a partir de vivências emocionalmente marcantes.

