Psiquiatra explica como passar 2 dias sem dormir afeta o corpo





Ficar mais de um dia sem dormir, seja por quem sofre com insônia ou por emendar festas, não causa apenas cansaço. Depois de 48 horas acordado, o cérebro começa a falhar em funções básicas, como manter a atenção, controlar emoções e tomar decisões.


Irritabilidade, lapsos de memória e sensação de estranheza podem aparecer neste período. Segundo o psiquiatra Henrique Bottura, presidente do Instituto de Psiquiatria Paulista (IPP), o cérebro entra em um estado de hiperreatividade.


“Esse estado leva a uma labilidade dos afetos, ou seja, a instabilidade dos afetos, em alguns momentos ficando mais irritadiço, podendo até ficar com o humor um pouquinho mais exacerbado”, afirma o médico.

Bottura explica que a atenção também fica prejudicada e a pessoa pode sentir despersonalização — uma sensação de estranheza, como se não estivesse totalmente presente no próprio corpo.



Alerta e ansiedade aumentada


De acordo com Bottura, quando a  pessoa atinge o teto de 48 horas sem dormir, a privação de sono pode imitar ou até desencadear sintomas parecidos com os de transtornos mentais. Há aumento da ansiedade e da reatividade emocional. Isso acontece porque áreas do cérebro ficam em desequilíbrio.



  • A amígdala, ligada às emoções, fica mais ativa;

  • O córtex, responsável pelo controle e pela regulação emocional, perde parte da capacidade de modulação;

  • O corpo fica em estado de alerta constante.


O neurologista Lucas Michielon explica que também ocorre acúmulo de adenosina — substância associada ao cansaço, além de alterações em neurotransmissores como dopamina, noradrenalina e serotonina e aumento do cortisol. Tudo isso reduz a eficiência do cérebro.


O córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e pelo autocontrole, é uma das regiões mais afetadas. “Certamente o cansaço extremo gerado por dois dias sem dormir gera alterações significativas no processo de tomada de decisão e no controle de impulsos”, diz Bottura.

Na prática, a pessoa fica mais impulsiva, tem dificuldade de avaliar riscos e demora mais para reagir. Michielon acrescenta que o hipocampo (ligado à memória) e o tálamo (relacionado ao estado de alerta) também sofrem prejuízos, o que explica lapsos de memória e falhas de atenção.


Foto colorida de mulher deitada sobre a cama em um quarto cheiro de bagunça -pós festa - Metrópoles
Após 24 horas sem dormir, o cérebro entra em estado de alerta constante, com falhas de atenção e alterações de humor

“Apagões” mesmo acordado


Um efeito preocupante são os microssonos — pequenos “apagões” que ocorrem mesmo com a pessoa acordada. Segundo Michielon, eles acontecem por falhas temporárias em regiões do cérebro responsáveis pela atenção e pela vigília.


Isso aumenta o risco de acidentes. Segundo os especialistas o desempenho após 24 a 48 horas sem dormir pode ser comparável ou até pior do que o de alguém acima do limite legal de álcool para dirigir.


A falta de sono afeta qualquer pessoa, mas pode ser mais perigosa para quem já tem diagnóstico psiquiátrico. Bottura alerta que noites sem dormir podem desencadear episódios de mania em pessoas com transtorno bipolar e agravar quadros de ansiedade ou depressão.


“Num paciente saudável, a falta de sono vai gerar uma irritação, uma lentificação. Mas em pacientes com transtorno mental, isso pode ser um gatilho”, afirma.

O sono pode ser totalmente recuperado?


Dormir na noite seguinte ajuda, mas não resolve tudo. Segundo Michielon, o sono perdido não é totalmente recuperado em apenas uma noite. “Alguns prejuízos, principalmente na atenção, podem persistir por dias”, alerta. Além disso, episódios repetidos de privação de sono podem ter efeito cumulativo e, em alguns casos, tornar-se irreversíveis.


O sono não é luxo, é necessidade biológica. Qualquer mudança importante de humor, irritabilidade ou dificuldade de concentração deve levar à pergunta básica — como está o seu sono?






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