
Um estudo internacional identificou dois novos tipos biolĂłgicos de esclerose mĂșltipla a partir da anĂĄlise de exames de sangue e imagens do cĂ©rebro com auxĂlio da inteligĂȘncia artificial.
A descoberta ajuda a explicar por que a doença evolui de maneira tão diferente entre os pacientes e pode contribuir para avaliaçÔes mais precisas do risco e da progressão da doença.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da University College London (UCL) e publicada em dezembro na revista cientĂfica Brain. Os cientistas analisaram dados de mais de 600 pacientes, participantes de ensaios clĂnicos, e cruzaram informaçÔes de ressonĂąncias magnĂ©ticas com a dosagem sanguĂnea de uma proteĂna associada a danos nas cĂ©lulas nervosas.
Esclerose mĂșltipla
- A esclerose mĂșltipla (EM) Ă© uma doença crĂŽnica do sistema nervoso central que afeta o cĂ©rebro e a medula espinhal.
- Ela ocorre quando o próprio sistema imunológico passa a atacar estruturas do sistema nervoso, comprometendo a comunicação entre os neurÎnios.
- Nesse processo, células inflamatórias atingem os oligodendrócitos, responsåveis pela produção da mielina, a camada que protege os axÎnios e permite a transmissão eficiente dos impulsos nervosos.
- A perda dessa bainha prejudica o funcionamento do sistema nervoso.
- A doença costuma se manifestar de forma progressiva e pode provocar sintomas como formigamento, alteraçÔes na fala, dificuldade de coordenação, fraqueza muscular e, em casos mais graves, paralisia.
- O diagnĂłstico Ă© mais frequente entre adultos jovens, geralmente entre 20 e 40 anos, com incidĂȘncia duas a trĂȘs vezes maior em mulheres do que em homens.
Como o estudo foi feito
O foco da anĂĄlise foi a cadeia leve de neurofilamento sĂ©rico, chamada de sNfL. Essa proteĂna funciona como um marcador de lesĂŁo neuronal, jĂĄ que seus nĂveis aumentam quando hĂĄ dano Ă s fibras nervosas.
Os valores do exame de sangue foram combinados com imagens de ressonùncia magnética do cérebro e interpretados por um modelo de aprendizado de måquina desenvolvido para identificar padrÔes ocultos na progressão da doença.
A partir desse cruzamento de dados, a inteligĂȘncia artificial conseguiu agrupar os pacientes em dois perfis distintos, algo que nĂŁo era possĂvel apenas com a observação clĂnica tradicional.
Dois padrÔes distintos da doença
O primeiro grupo, chamado de sNfL precoce, reĂșne pacientes que apresentam nĂveis altos da proteĂna logo no inĂcio da esclerose mĂșltipla. Nesses casos, os exames jĂĄ mostram lesĂ”es rĂĄpidas no cĂ©rebro, especialmente em estruturas ligadas Ă comunicação entre os hemisfĂ©rios, o que indica uma forma mais ativa e agressiva da doença.
Jå o segundo grupo, o sNfL tardio, é marcado por um processo mais lento. Os pacientes começam a apresentar atrofia cerebral em regiÔes profundas antes mesmo do aumento do marcador no sangue. Isso sugere que o dano se acumula de forma silenciosa por mais tempo, com sinais biológicos mais evidentes apenas em fases posteriores.
Segundo os autores, identificar esses padrĂ”es ajuda a entender em que estĂĄgio a doença se encontra e quais pacientes tĂȘm maior risco de evolução mais rĂĄpida.
O que muda na prĂĄtica clĂnica?
O neuroimunologista Thiago Taya, do Hospital SĂrio-LibanĂȘs, em BrasĂlia, explica que a principal mudança nĂŁo estĂĄ no diagnĂłstico inicial, mas na forma de acompanhar e tratar a esclerose mĂșltipla.
“Essa classificação ajuda a identificar quem tem maior risco de uma doença mais agressiva e de acĂșmulo precoce de lesĂ”es. Isso influencia diretamente o grau de vigilĂąncia e a estratĂ©gia de tratamento escolhida para cada paciente”, afirma o mĂ©dico. Ele nĂŁo participou do estudo.
Taya destaca que o diagnĂłstico da esclerose mĂșltipla segue critĂ©rios clĂnicos bem definidos, mas que essas novas informaçÔes biolĂłgicas ajudam a prever o prognĂłstico e a evolução futura do quadro.
Exame de sangue e limites atuais
O exame de dosagem do sNfL jĂĄ existe na prĂĄtica clĂnica neurolĂłgica em grandes centros, mas ainda enfrenta barreiras. “Ă um exame de sangue relativamente simples, mas o custo e as restriçÔes de cobertura dificultam o uso rotineiro para todos os pacientes”, explica o mĂ©dico do SĂrio-LibanĂȘs.
Ele ressalta que o marcador nĂŁo Ă© exclusivo da esclerose mĂșltipla, jĂĄ que qualquer lesĂŁo no sistema nervoso pode elevar seus nĂveis. Ainda assim, em pessoas com diagnĂłstico confirmado, o exame tem utilidade para indicar atividade inflamatĂłria e risco de progressĂŁo.
O papel da inteligĂȘncia artificial
Para o especialista, a inteligĂȘncia artificial tem um papel importante ao integrar dados clĂnicos, laboratoriais e de imagem com mais precisĂŁo. “Ela ajuda a enxergar padrĂ”es que seriam difĂceis de identificar manualmente e pode orientar decisĂ”es mais personalizadas”, diz Thiago.
Apesar do potencial, ele pondera que o uso amplo dessas ferramentas ainda exige validação, treinamento de equipes e estrutura adequada. “Para aplicação em larga escala, esse Ă© um objetivo de mĂ©dio prazo”, conclui.
Source link
https://jornalismodigitaldf.com.br/estudo-identifica-2-novos-tipos-de-esclerose-multipla-com-ajuda-da-ia/?fsp_sid=246873











